segunda-feira, 9 de novembro de 2015

A culpa é das estrelas?


Semana passada surgiu uma "polêmica" nos bastidores da escola de uma educadora que conheço. Uma crítica de uma professora de Literatura a outra professora de Literatura. O motivo: a indicação de leitura de A Culpa é das Estrelas de John Green.
Eu não sou, particularmente, fã de John Green. Na real, não curto mesmo o trabalho do citado autor, mas conheço diversas pessoas que amam. Entendo que alguns professores ainda são muito tradicionais e compreendo também que o desejo que eles possuem é o de preparar alunos do Ensino Médio para vestibulares que exigem a leitura dos clássicos.
Esta última já torna a situação um pouco problemática. Penso que educadores em geral não deveriam ter como prioridade apenas formar "acadêmicos em potencial". Em um país onde a leitura ainda é pouco valorizada, a prioridade deveria ser o de formar leitores.
Esta situação me fez lembrar de um texto escrito pela blogueira Lorena Vieira em um grupo do Facebook ano passado:

"Gente, eu sei que isso não tem muito a ver com o grupo, mas vim aqui para ver se algumas pessoas que trabalhem em escolas, leiam este meu post.
Bom, todo mundo sabe que o povo brasileiro não costuma ler muito, muito menos aqueles livros que as professoras passam em sala de aula. Eu não gosto, mas leio para não tirar nota baixa. 
Mas eu gostei muito da iniciativa que uma bibliotecária minha teve na minha escola, coisa que eu não vi em nenhuma outra na minha cidade (ser humano, se isso acontece na sua escola, bom pra você).
Para incentivar a leitura, a bibliotecária decidiu, ao invés de ficar comprando esses livros que ninguém lê, comprar os mais populares que está todo mundo lendo e querendo. 
Ela começou a anotar em uma listinha os livros que a gente queria ler. E sempre que a verba chegava e ela terminava de comprar os livros que a escola pedia para comprar, com o restante do dinheiro ela comprava os livros da lista.
Só para vocês verem, quando essa bibliotecária começou a fazer isso, a biblioteca ficava cheia de gente querendo ler! 
Pois lá tinha Percy Jackson, Jogos Vorazes, Os imortais, A Mediadora, Harry Potter, Maze Runner e muitos outros. 
Os livros nem paravam na biblioteca, você tinha que reservar o livro e geralmente sempre tinha uma pessoa que havia reservado antes!
Bom, quando essa bibliotecária saiu, isso parou de acontecer (triste), porém, seria muito bom se alguns educadores que estivessem aqui, pudessem indicar essa ideia em suas escolas. Com toda certeza incentivaria a leitura!
Eu fiz este post só para dar a dica mesmo, porque na escola aonde eu faço curso, a biblioteca é igual ao que era a da minha escola antes da nossa bibliotecária predileta inventar de fazer isso". Lorena Vieira


O que ela fez foi um verdadeiro apelo ao pessoal da Educação e acredito que tal apelo deveria ser atendido.
É óbvio que os clássicos não podem ficar de fora, porém, creio ser desnecessário afirmar que a leitura dos mesmos é um pouco difícil para quem está começando, principalmente aqueles que não tiveram incentivo à leitura em casa.
Eu tive muito incentivo na infância e de cara curti os clássicos, principalmente do Realismo como Memórias Póstumas de Brás Cubas e O Ateneu, entretanto, tenho plena consciência que faço parte de uma minoria.
Muitas pessoas que conheço relatam o mesmo drama que Lorena, de terem lido os clássicos por obrigação e, infelizmente, uma boa parte destas pessoas sentiram-se totalmente desestimuladas e hoje afirmam ter aversão à leitura.
Por outro lado, conheço pessoas que começaram com HQ´s, mangás e hoje leem de boa um Os Lusíadas, por exemplo.
E também me pergunto o porquê de tamanho preconceito com autores contemporâneos. Teriam eles menor valor por terem um vocabulário mais moderno? 
Isso é algo que deveria ser revisto. Pelos futuros leitores e também, autores.


Mi F. Colmán


Sugestão de leitura: O hábito de ler por Taís Luso de Carvalho.

7 comentários:

  1. Oi Mi
    Eu leio desde pequenininha, mas confesso que ainda fujo dos clássicos. Na escola onde estudei, não tínhamos leituras obrigatórias. Acredita que eu era a unica da minha sala que lia livros literários? Eu vivia na biblioteca da escola, que era recheada tanto de clássicos como de contemporâneos. Devorei aquela biblioteca toda. Gostaria que houvesse um incentivo maior da parte dos educadores para a leitura. Começar com os clássicos é difícil. Comecem com os contemporâneos e vão aprofundando. Tem que ser algo gradual e natural.
    Beijos

    Vidas em Preto e Branco 

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  2. rssss, surpresa, querida MI?? É um prazer enorme estar aqui com você. Pois é, não gosto de ler nada quando me empurram goela abaixo e não era hora de A Moreninha, Iracema, Lucíola... Sim, eu era rebelde para aceitar alguma leitura imposta, sem que me perguntassem o que eu gostaria de ler. Esse meu texto que você indica aos seus queridos amigos e muitos deles meus, também, é um texto provocativo. Então resolvi passear pelo colégio das freiras com o polêmico O Muro, de Sartre - pra lá e pra cá. Meus pais foram chamados ao gabinete da diretora e ficou por isso mesmo.
    - Sua filha está muito rebelde, está dando mal exemplo aos colegas!
    Digo, querida Mi, adiantou muito pra mim e para minhas colegas. Não se impõe leitura às crianças, deixe-as livres, o hábito é importante, sem ele nada feito. Depois vem a triagem onde aprenderemos a requintar nossas escolhas.

    Grande beijo, obrigada pela indicação!

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  3. Estou lendo esse livro por curiosidade. Gosto sim de conhecer tudo que é modinha e estoura pra eu ver o que eu acho. Nem li a postagem :P Medo de spolier rsrs

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  4. Eu estou lendo esse livro. Eu gosto de conhecer o que é modinha, ficar por dentro pra poder falar bem ou mal rs. Eu nem li o texto nem os comentários por medo de spoiler :P rsrs. Quando terminar eu leio. esse.

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  5. Eu gosto tanto dos clássicos quanto os moderninhos, eu li A culpa é das estrelas e adorei :)
    Eu gostei do incentivo daquela bibliotecária que comprava os livros que não eram clássicos.
    O importante é formar leitores!
    Beijokas!

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  6. Oi Mi!
    Acho válido a leitura de autores contemporâneos; é sim um estímulo à ler. Mas também acho que cabe à escola, aos professores, o incentivo à outros tipos, gêneros de leitura e aí entram os clássicos também.
    Li o texto da Taís e realmente, quando eu estava na escola, a leitura era imposta da seguinte forma: "Para o dia 18 leiam tal livro e me entreguem a ficha de leitura completa". Não havia discussão sobre a obra, enfim, tínhamos que nos virar.
    Hoje, vejo que com meus filhos é agradavelmente diferente: a obra é lida junto com o professor, alguns capítulos sozinhos, para na aula seguinte darem seqüência à discussão; eles encenam os clássicos e mesclam leituras atuais como o "Eu me chamo Antônio" que virou produção na aula de artes depois que saiu da aula de Literatura.
    Vejo um grande problema em se ficar apenas nos moderninhos, as editoras estão amando isso. São os primeiros lugares nas listas, nas estantes bonitas dos youtubers e muitos são mais do mesmo. Sem acrescentar em vocabulário, em interpretações, uma literatura mediana. E corre-se o risco de ficar atado somente a este tipo, o livro modinha. Desafiar-se num outro gênero, um outro autor, um clássico, só acrescenta e eleva o nível de leitura.
    Temos uma safra tão boa de "novos" escritores que não é contemplada nem nas redes sociais nem pelas escolas.
    Minha filha, 10 anos, encanto-se recentemente por um livro da moda, escrito por quatro populares autoras. Comprei para ela e logo depois soube de um programa em que as autoras participariam juntas. Assistimos e nos decepcionamos logo de início. Elas nem se conheciam, escreveram individualmente a pedido da editora, ou seja, uma manipulação visível da famigerada editora.
    Afinal se só uma das autoras vendeu sozinha 1 milhão de exemplares, juntando as quatros, os lucros são astronômicos.
    Beijo!

    Aproveitarei a oportunidade para deixar o link de uma entrevista com Zygmund Bauman, já que você sinalizou querer saber um pouco mais dele.
    Para quando tiver 1 hora disponível:

    http://observatoriodaimprensa.com.br/oitv/entrevista-com-zygmunt-bauman/

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  7. Oi Mi, passando por aqui para matar a saudades de minha "Madrinha Malévola" rsrsrsrsrs. Adorei esse post. Penso que o hábito de ler pode ser comparado com o habito de beber vinho. Quanto mais avançamos nessa "arte", mas vamos viando seletivos, querendo algo melhor. Há uns anos atrás, havia a febre daquels vinhos alemaes branco tipo garrafa azul...eu adorava...e li em algum lugar, que apesar de não ser o melhor vinho para se apreciar, era um caminho que o brasileiro estava fazendo para aprender a degustar um bom vinho. Comigo aconteceu justamente isso. Penso que a leitura é um pouco por ai. O estimulo pode começar até por gibis, HQ, quer coisa mais envolvente que esses livro agua com açucar para adolescentes? Isso é uma iniciação....e eu acho super valido. Minha filha adolescente, começou pelos gibis....passsou e passa por esses livros e momento....Mas hoje se interessa por outra coisas....Mitologia, e por ai vai...e estava lendo uma media de quase 40 livros por ano. Neste ano, com o ensino medio "puxadissimo", onde se trocam uma boa discussão por um punhado de de simulados, toda essa pressão absurda pelo tal vestibular, ela diminuiu o ritmo...teve inclusive dificuldaes de ler os livros para a escola. Motivação Zero deste nosso sistema educacional. Penso que terá que ser revisto em algum momento. Achei super pertinente seu posto e comungo também destas idéias. bjs

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"Não compartilho meus pensamentos achando que vou mudar a cabeça de pessoas que pensam diferente. Compartilho meus pensamentos para mostrar às pessoas que já pensam como eu que elas não estão sozinhas". Autor desconhecido

"Ser feliz é saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um “não”. É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta". Augusto Cury

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Mi F. Colmán

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Quem ri por último, Rivotril

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Mais um Rivotril. O restinho dos ratos gritando somem. O restinho das pombas macabras somem. O restinho dos corvos somem. Todos para longe. Lá vai a mulher que assusta. Tati Bernardi.