04/07/2015

Sem despedidas - O último pedido
















Com as mãos trêmulas, Cristina percebia que chegava ao fim seu último cigarro. Sentada no chão do quarto, o longo cabelo desalinhado que não via um chuveiro havia dias, procurava uma posição confortável recostada na madeira da lateral da cama. Os pés descalços estavam anestesiados e não sentiam o frio do piso gelado. No corpo, além das roupas curtas de cores escuras, as marcas das lâminas sangrando e que ficariam marcadas na pele para sempre. Como tantas outras marcas de acontecimentos trágicos e cruéis de sua vida.
Ao redor, o caos de um quarto desarrumado, que não era limpo há semanas as quais perdera a conta, a cama desarrumada... Já nada importava. Uma taça, garrafas de vodka sabor framboesa e diversas cartelas de remédios de tarja preta e vermelha.
Havia também uma taça de vinho, fechada. Não parecia interessante. Bebia a vodka no gargalo, a taça e a garrafa de vinho serviam apenas como distração, a qual ela brincava girando com um dos pés, com uma vontade imensa de afundar a pele e estilhaçá-la junto ao objeto cortante.



"Eu gostaria de escrever tão bem (ou tão pessimamente mal) quanto os autores de livros de autoajuda como O Segredo conseguem escrever e vender milhares de exemplares. Só para dizer às pessoas que os problemas não existem.
Mas eles existem, lamento informar.
Lamento informar a mim mesma". - digitou um pouco antes estas palavras em seu computador.



Os fogos do lado de fora iluminavam a sua janela com seu brilho colorido anunciando o aniversário fake de Jesus. Aquele ano não teve festa, só uma reunião entre familiares (o qual não comparecera, sempre odiara fazer aniversário na véspera de Natal), não teve árvore de Natal e nem apreciou as luzes das casas como gostava de fazer. Que sentido teria fazer isso agora?

"Toda minha família está afoita com meu aniversário e o Natal, enquanto me remoo em solidão. O que é solidão, afinal? Solidão é estar rodeada de pessoas queridas e ainda assim, sentir-se só. Solidão é este estado de espírito clichê, um algoz".

Lembrou-se novamente dos livros de autoajuda e concluiu que só havia um jeito dos problemas deixarem de existir.
Não queria suspense, não queria drama. Queria tudo muito rápido, embora soubesse que não seria tão rápido assim como se tivesse uma arma. As lágrimas silenciosas rolavam enquanto esmigalhava uma parte do coquetel de uma letal combinação de comprimidos dentro de uma das garrafas de vodka.
Morbidez sabor framboesa...



"Se pudesse deixar uma mensagem a todos seria: não tenham medo de ser vocês mesmos, mas agora tudo o que eu disser soará hipócrita".

Limpou as lágrimas que insistiam em rolar copiosamente com as costas das mãos, levando a garrafa aos lábios carnudos.

"Nunca fui normal. Nunca me adaptei aos padrões do mundo. Eu tentei. Deus sabe o quanto eu tentei até a última gota. Mas sempre chega a gota d'água e ela se chama Hoje".

As lágrimas persistiam...

"Como dói meu coração, como dói tudo o que perdi de viver, do que ficou para ser vivido. Como dói ter sido omissa e como dói ter sido sincera.
Já falei mentiras e me arrependi profundamente.
Mas também me arrependi das verdades que ousei proferir.
Em ambas situações há punição. As pessoas simplesmente não querem saber e não importa o que você faça, elas nunca irão se importar. Porque cada um só se preocupa com sua própria vida, seu próprio umbigo, seu centro do mundo".



Sentindo a vertigem, mordeu os lábios e prosseguiu, agora esforçando-se para engolir alguns dos comprimidos soltos.

"Eu me perdi de todos, mas cometi o pior pecado, que foi o de perder-me de mim.
Sou apenas uma tempestade. 

Acho que sempre fui e agora, esta tempestade precisa desaguar".

Suas forças já se esvaíam, mas precisava terminar o que começou. Basta de deixar coisas inacabadas.

"Nada como a noite de Natal, que sempre me trouxe as melhores lembranças, para ir ao lugar onde preciso estar. E quanto ao meu aniversário, ninguém saberá qual foi o último pedido que fiz mesmo sem soprar as velas.
Boa noite.
Feliz Natal!
E parabéns para mim".




Não foram as garrafas de vodka, nem mesmo os comprimidos de tarja preta e vermelha que mataram Cristina.
O que matou Cristina foram as boas lembranças que não mais voltariam. O que matou Cristina foi a insensibilidade e crueldade do abandono por falta de compreensão. O que matou Cristina foi a saudade.


Mi F. Colmán



Está clareando lá fora
Ela ainda está ali, mas ninguém se importa
Eles cantaram Feliz Aniversário ontem
Sem ela

Você quer ver a si mesmo voando através da noite?

Este é o presente que você precisa
Você vai ficar bem
Feche os olhos e caia

A primeira vez dela no limite
As cicatrizes ficarão para sempre
Lado a lado com a morte
Um momento que se sente melhor

Escuridão e luz, estão cegando sua visão
Ela não voltará...

Está clareando lá fora
Ela não consegue dormir
Porque o tempo continua
As mãos de alguém a tocam
Ela não sente desejo algum
Cada vez que isso a machuca
Ela só se sente tão só
Para ela nada importa
Suas memórias se foram
Feche os olhos e cai

E chegando perto do limite
As cicatrizes permanecerão para sempre
Lado a lado com a morte
Esse momento parece até melhor que qualquer outro

Escuridão e luz, estão cegando sua visão
Ela não está voltando...

Ela fecha a porta, quer mais e mais... e mais
Ela fecha a porta
Ela quer mais e mais... e mais.
Só uma vez mais...
Um pouco mais...

Todos estão olhando seus braços
Estão tão doloridos
Mas para ela nada mais importa

E caindo do topo
As cicatrizes estarão ali para sempre
Lado a lado com a morte
Esse momento parece melhor que qualquer outro

Escuridão e luz, estão cegando sua visão
Ela não está voltando...
Não vai voltar

O céu está caindo
O seu último pedido
Continua sem ser dito...

Minha participação na BC com o tema Saudade organizada pela Ana Paula do blog Lado de Fora do Coração em parceira com a Tina Bau Couto do Meu Blog e Eu.


I´m bleeding, quietly living I´m living, quietly bleeding - Dominik
 renata massa