08/03/2015

Descobrir-se e revelar-se mulher


Neste dia que foi separado para homenagear a mulher, não quero flores, bombons e adulações. Não que eu não goste de flores e bombons (as adulações, realmente dispenso), mas por ter consciência que o marco desse dia veio de uma data sangrenta, onde mulheres foram carbonizadas por protestar por justos salários.
Esclareço que não me contrario nem um pouco às que querem ser aduladas. Afinal, cada mulher pode (e deve) fazer o que quiser. Está mais que na hora de suas autoestimas gritarem por isso.
Hoje quero apenas dizer que por motivos pessoais, não consigo agir com felicidade diante das "fofas" homenagens, vendo a situação de minhas irmãs, infelizmente, ainda tão atual, que lutam para ter salários iguais pelo mesmo trabalho que colegas homens fazem. Cujo lugar de liderança é de uma diferença esmagadora. Irmãs que enfrentam além das desvantagens profissionais, uma jornada excessiva de trabalho porque a maioria do lado oposto não evoluiu junto (nem faz muita questão por motivos óbvios). Sofrem todo tipo de violência, seja dentro de casa ou por simplesmente precisar usar o transporte público. Sofrem todo tipo de abuso e assédio, entram em pânico quando precisam sair sozinhas altas horas na escuridão da noite. Tem seus corpos e roupas "confiscados" o tempo todo por todos. Precisam brigar para serem chamadas pelo seu nome social e entrarem no banheiro que lhes é de direito, pura e simplesmente porque o preconceito e a ignorância não permitem que sejam enxergadas como realmente são e por tantas outras coisas que ainda precisam ser modificadas.

Assim como nem tudo são rosas, nem tudo também são espinhos.
Temos grandes inspirações de mulheres poderosas na História, começando pela Bíblia, como a Rainha Ester, que com uma ousadia extrema para a época, intercedeu ao rei (correndo risco de morte) e salvou o seu povo.
E depois de Sua ressurreição, para quem Jesus escolheu aparecer primeiro? Não foi a um de seus apóstolos.
O que dizer de Inês de Castro? Conta a lenda que Rei Pedro retirou-a da tumba e fez a corte beijar suas mãos já putrefatas.
A Senhora Simpson? Que fez Duque de Windsor abrir mão de seu trono.
Quanto a Romeu e Julieta? Quem foi o primeiro a desesperar-se e fraquejar? Não foi a "histérica" Julieta e sim, Romeu. Obviamente que estamos tratando de ficção aqui, mas uma ficção escrita por um homem e, como autora, posso garantir, há muito de nós em cada linha que escrevemos.
A atual J.K Rowling que com seu talento conseguiu salvar-se da miséria com seu épico personagem Harry Potter e a própria Stephanie Meyer, uma "mera" dona de casa, tornou-se uma das mais famosas escritoras da atualidade com a saga Crepúsculo.
Há tantas mulheres além de suas épocas que se mostraram poderosas como Cleópatra, Marie Curie, Brigitte Bardot,  Frida Kahlo, Judith Butler, Lea T e uma lista infindável de guerreiras anônimas as quais todas nós com certeza temos uma para citar na ponta da língua.



O que quero dizer é que toda mulher tem valor e não é um ser limitado. 
Ser mulher não se trata de úteros, ovários, TPM, menstruar, poder ter filhos, poder criar filhos que não são seus, encarar duplas jornadas de trabalho e desvalorização social, inclusive a aquelas que optaram por ser donas de casa apenas. Ser mulher não se trata somente de encher o rosto de maquiagem, fazer dietas e tratar as imperfeições que só ela sente ter, escravizada por padrões inatingíveis.

















Ser mulher não se resume a futilidades as quais são acusadas, de não terem capacidade de ver além das aparências e estourar cartões de crédito dos "pobres" maridos, visto que grande parte delas nem precisa de um para sobreviver e vivem muito bem. 
Ser mulher não se resume em odiarem umas às outras e, quando acabam fazendo, muitas descobrem o poder da sororidade que as ensina a crescerem e lutarem juntas por um mundo mais digno para si, contrariando as expectativas e trazendo mudanças à cultura patriarcal.



















Ser mulher não se trata de aulas de Biologia que temos no Ensino Fundamental, Médio e na Faculdade.
Mulher não se resume ao biológico, aliás, mulher não deve nunca aceitar ser resumida.
Nascer mulher biologicamente falando pode ser encarado como um fardo para algumas, mas reconhecer-se livremente como uma, uma grande meta a ser alcançada para outras.
Reconhecer-se mulher...
Poder se olhar com dignidade e se ver como uma verdadeira e bela mulher, independente do que diz a oposição. 
Experimentar pela primeira vez um vestido (seja gótico, clássico, vintage, pin up) e sentir-se à vontade, feliz e digna de ver-se diante do espelho e sair por aí como... a MULHER que verdadeiramente é.
Nascer biologicamente mulher pode ser ótimo para quem sabe o que fazer com isso.
Simone de Beauvoir disse que não se nasce mulher, torna-se.
Discordo. Quem nasce mulher, independente de tudo, sabe que simplesmente o é. O que acontece é que algumas apenas levam um tempo para entender e se descobrirem. Ou criar coragem para ser o que realmente são.
E descobrir-se e revelar-se mulher é a parte mais mágica da vida de uma.


Amy Lee, minha primeira e principal inspiração feminina.

Minha subversiva homenagem ao Dia Internacional da Mulher. E a todas as mulheres, sem exceção, em especial às trans* tão negligenciadas e que compreendem melhor do que ninguém o que é descobrir e lutar por sua verdadeira essência feminina.

Eu sou humana e preciso ser amada, apenas como todo mundo é.


Nota: Kim Petras é a cantora transexual mais jovem do mundo da música. 


Mi F. Colmán



I´m bleeding, quietly living I´m living, quietly bleeding - Dominik
 renata massa