04/06/2015

Vingança


- O monstro do meu tio que me fez muito mal hoje tá na cadeia, mas isso não me faz sentir melhor da depressão. - revelou Dennis a um grupo de ajuda psiquiátrica no Facebook.
- Cara, a melhor vingança é você ficar bem. - aconselhou Diogo.
Lembrei-me imediatamente de uma tensa noite onde dei um mau conselho.
Estávamos em uma reunião no grupo de dependentes químicos da Igreja quando eu, como voluntária, apresentei uma palestra sobre depressão, automutilação e dependência química. 
Ao fim do evento, uma das senhoras que ajudam a manter a clínica de reabilitação me chama a sós com uma expressão desesperada:
- Você tem que me ajudar. Conheço um menino que tem esses problemas. Ele estava aqui internado, mas fugiu. Foi abusado sexualmente e falou para minha sobrinha que esta noite vai para bem longe de casa por querer poupar sua mãe de ver, mas disse estar decidido se matar. Por favor, ajude!
E, intacta, eu me encontrei com um papel na mão escrito Nick e um endereço que pertencia ao país vizinho.
Não me dei conta que havia escurecido, eram quase oito da noite e não tive outra alternativa senão avisar os pastores, afinal, chegara ali de carona com um deles.
Óbvio que ouvi de um, o estúpido clássico: "Quem quer se matar, não fica falando, faz".
Por sorte o que dirigia era mais sensato e resolveu ajudar da maneira dele. Orando, claro.
Chegamos na casa de Nick e lógico, tudo aparentava absolutamente normal. O pai assistindo tv na sala, o chamou para ver-nos. Eu o reconheci. Já o tinha visto anteriormente na clínica. A primeira pergunta que o pastor desconfiado fez foi como ele estava. E, sorridente, Nick respondeu estar ótimo, preparando o jantar para a mãe, informando que logo depois se prepararia para dormir.
Para quem não tem olhos tão atentos como os meus, tudo corria bem e a mulher que solicitou ajuda só poderia estar louca. Porém, enquanto os pastores oravam achando que aquilo ia resolver alguma coisa, minha percepção denunciava um jantar de descargo de consciência, um "dormir" para sempre e alguém que a última coisa com a qual estaria preocupado seria Jesus e Sua salvação. 
Com expressões de "missão cumprida" os dois me chamaram de volta para o carro, mas meu instinto foi mais forte. Puxei o garoto pelo braço, dei um abraço forte e conversei com ele a sós num canto da varanda de sua casa.
- Nick, eu sei o que te aconteceu e só vou te dizer uma coisa, não faça nada contra si mesmo. Acredite, você é muito mais do que te fizeram. Você é jovem, é bonito, tem toda uma vida pela frente. Não deixe quem te fez mal ganhar! A tua vitória será a melhor vingança!
Ele relutava contra as lágrimas e foi quem me deu o segundo abraço, agradecendo. Sua feição parecia melhor e aquela noite dormi aliviada.
Não foi surpresa revê-lo no domingo, em uma confraternização após o culto e muitas outras vezes.
A tática funcionou, é o que importa, não?
Como uma emergência, eu diria que sim.
Acredito que muitos como eu adoram a série Revenge. Quem não torce pelas loucuras que Amanda Clarke, vulgo Emily Thorne faz para vingar-se dos seus opositores? 
Quem nunca sofreu o mal de alguém e não desejou ver diante de seus próprios olhos algo como Justiça Divina ou Lei do Retorno acontecendo? Admito que eu, inúmeras vezes. 
Quem também nunca ouviu conselhos semelhantes ao meu e do Diogo do início do texto, dando a volta por cima?
E me pergunto: será que todo este desgaste vale mesmo a pena? Não deve ser apenas em casos emergenciais e depois, haver maiores esclarecimentos?



Dezembro de 2014, um garoto emo de um outro grupo do Facebook anuncia aos amigos via Skype que irá se matar porque sua namorada o trocou pelo amigo e, pouco levado a sério, se enforca dentro do quarto poucos minutos após o anúncio, vindo ao óbito aos 17 anos de idade.
Até hoje acompanho a trajetória de sua mãe, que além de estar enfrentando um câncer, foi acometida por tamanha tragédia em sua vida.
O perfil da garota? Por volta de 30, 31 do mesmo mês mostra-se felicíssima planejando que cosplay usar na virada do ano e ainda ironiza o apelido de "assassina", afirmando que a inspira.
Evidente que não a julgo, não sei o que houve entre os dois, muito menos posso afirmar que tal felicidade seja real. Mas a verdade é que sua ironia não deixa qualquer vestígio de, no mínimo, respeito pelo ocorrido. Independente da perseguição que deve ter sofrido depois do caso, nada justifica ironizar a situação de uma mãe gravemente doente e enlutada a qual há, mesmo que indiretamente, seu envolvimento.



É aí que aprendo que vingança, suicídio, choros, nada vale a pena por pessoas que um dia nos prejudicaram. Aprendo que ninguém está nem aí com os sentimentos alheios. Aprendo que nem todos pensam com altruísmo como uma parte de nós (graças a Deus, ainda!) pensa. Simplesmente, como num game, dão restart em suas vidas e procuram, pelo menos à sua maneira, ficarem felizes. Se é que pode-se ser realmente feliz e contemplado pela vida após deixar um rastro de tanta dor. Porque a vida real, creio eu, não há recomeços sem circunstâncias. Não deve haver, como nos games, um restart completo.

“Para o inocente, o passado pode guardar uma memória. Mas para os deleais, é só uma questão de tempo antes do passado devolver o que eles realmente merecem.” Revenge

Mas aprendo também que não cabe aos prejudicados se preocuparem mais com isto. Já basta o que lhe fizeram de mal. 
Por essa razão eu chamo de mau conselho. 
Estar bem não é a melhor vingança. Porque não se está buscando ficar bem por si mesmo, mas ainda vive-se em função do outro e do mal que lhe foi feito. É como um suicídio em vida.
Não existe uma melhor vingança.
O que existe é procurar viver bem longe dela. 
O ideal é seguir a vida de forma plena por sua própria causa, mudando completamente o foco. E fim.


Mi F. Colmán





















"Ou você segue a vida. Ou ela segue sem você". Ádila Cabral.

Nota: Os nomes citados são fictícios para proteger a identidade das pessoas mencionadas.




I´m bleeding, quietly living I´m living, quietly bleeding - Dominik
 renata massa